Institucionalidades da arte, da cultura e da educação

O texto abaixo faz parte de uma discussão acontecida na Lista de Discussão do Opiniões Cênicas, formada por interessados em questões de política, gestão e mobilização cultural no Espírito Santo. Ao final da mensagem segue a “trilha” das mensagens que a antecederam.

Acompanhando a trilha do debate (só não achei — acho que não achei — uma réplica do Waldo, mas posso estar confundindo as estações), fico ruminando com os meus botões que os malentendidos são bizantinos & recorrentes. Pessoalmente (ou seja, em termos de “mim-mesmo”), nunca vivi esse conflito do choque entre cultura-arte-educação, na medida em que desde bem jovem fui assumindo as identidades & ofícios de poeta e professor; já institucionalmente (ou seja, em termos de “mim-para-os-outros”), já senti muito os efeitos dessas incompatibilidades e tensões institucionais e — por que não dizer — disciplinares.

Tenho batido muito na tecla da crítica aos pressupostos que orientam a definição e a estruturação não apenas dos institutos e das políticas públicas (como as secretarias de cultura e educação), mas também dos princípios que regem as próprias práticas artísticas, culturais e educacionais. Por exemplo: na maior parte das vezes as discussões acabam tendendo a buscar o estabelecimento de uma cadeia de valores: quem é MAIS importante, a “culltura”, a “arte” ou a “educação”, cada argumentador tentando puxar mais a brasa do valor pra sua própria sardinha. Concordo que, em termos pragmáticos, não dá pra contar que uma hegemonia institucional (a da educação, p. ex) não tente se sobrepor num contexto, daí a necessidade de segmentar os interesses de cada área em “pastas” específicas. Mas a questão não é — não me parece ser — a de quantas instituições devam/possam existir, e sim a de perceber e instrumentalizar as possibilidades de trocas, cooperações, acordos entre elas. E isso só se torna possível na perspectiva do estabelecimento não de um “senso comum”, mas de um “repertório comum” de referências, de conceitos. E aí voltamos à vaca-fria: a Cultura não conversa com a Educação (& vice-versa), a Cultura não conversa (ou quase não conversa) com a Arte (& vice-versa). E nós perdemos as potências de todas, dando espaço para as artimanhas & fogueiras — muitas vezes incêndios — de vaidades.

Prossigo na tentativa de exemplo. Hoje, segundo os condicionamentos que orientam a estruturação curricular do ensino regular, a cultura e a arte são dadas como “objetos de ensino”, itens compreendidos, enquadrados pelo currículo. Note-se, porém, que a organização curricular costuma ser definida a partir de categorias quase que exclusivamente socioeconômicas (uma herança “quase” velada das teorias do subdesenvolvimento) e cognitivistas (que tendem a despersonalizar o ato da aprendizagem, ainda tentando alcançar aquele “sujeito transcendental” e universal modelado por Kant e aplicado, pelo menos, até as teorias de matiz piagetiano). A educação é vista como um “direito de classe” (ou uma “possibilidade de classe”), devendo ser segmentada de acordo com a posição do cidadão na divisão social do trabalho. Isso até faz sentido — e talvez muito — quando se fala de conhecimento técnico, mas se torna um desastre quando se estende ao conhecimento estético. Afinal, se o “trabalho” é restrito por condições materiais, a “fruição” é ambientada em condições de sensibilização e imaginação.

Não tendo tempo pra aprofundar as questãs, paro num para-alelo: ao invés de negar essas variações de representação e territorialização, temos mais a ganhar se aprendermos a potencializá-las e articulá-las. Ou seja, é bom não perder de vista uma “especificidade cultural da ação cultural”, mas é bom não desprezar a possibilidade de ver a cultura como “continente” da educação, em alguns momentos, e a educação como “continente” da cultura, em outros, valendo o mesmo para a arte: afinal, a validade dos conceitos não se dá na abstração de suas composições, mas na concretude de suas aplicações.

É isso, por enquanto. Sempre batendo-cabeça,

Orlando

P.S.: Ainda estou trabalhando no “upgrade” do meu blog de poemas, mas já acho que ele está “visitável”… Quem quiser conferir, fica o convite para conhecer o Occidentia.

Aqui, a matéria que deu início à discussão:

João Sayad se diz “feliz” por não trabalhar com secretaria da Educação
DA REPORTAGEM LOCAL

Para quem estava na platéia do debate ocorrido no Sesc Belenzinho, a
sensação era de que os tradutores tinham dado algum tropeço. Mas não. O
ruído não era de linguagem. E sim de visões culturais.
Após o discurso do diretor regional do Sesc, Danilo Santos de Miranda, que
traçou uma linha histórica do trabalho da instituição, que busca atar
esporte e cultura, o secretário de Estado da Cultura, João Sayad, desfez
esse laço.
“Na secretaria de Cultura nosso foco são as artes. Não estamos preocupados
com educação, que é um sistema congestionado, complicado. Estamos felizes
pelo fato de estarmos separados dele”, afirmou, fazendo alguns dos presentes
se remexerem nas cadeiras.
“Também não queremos fazer turismo. Somos pressionados para atrair o
turismo, mas nosso foco é a arte. Também não estamos preocupados nem com
economia nem com emprego. Nossa preocupação é com o que não está na moda,
com o que não chega às pessoas. Nos interessa tanto a Pinacoteca quanto o
hip-hop.”
Ao suceder o colega ao microfone, o secretário municipal de Cultura, Carlos
Augusto Calil, não pôde deixar de referir-se à fala de Sayad. Ao tentar
explicá-la, acabou por reforçá-la.
“A baixa institucionalização é um grande problema na administração pública
brasileira. O João [Sayad] talvez tenha sido um pouco melancólico, mas tem
razão. É praticamente impossível fazer qualquer coisa com a educação.
Simplesmente, não conseguimos”, queixou-se Calil que, como Sayad, é
professor da USP.
Não sem uma ponta de ironia, o secretário municipal também jogou um balde de
água fria sobre as ações culturais “do bem”. “Não adianta criar orquestras
com jovens que não querem tocar música”, disse, provocando risos na plateia.
“A cultura não vai tratar das mazelas sociais, do crime. Essas ações são,
muitas vezes, uma maneira de compensar a má consciência, mas sempre com
dinheiro público, é claro.”
O papel do Estado foi outro tema central do debate. Sayad fez a defesa do
modelo de Organizações Sociais, que entrega a entidades privadas a
administração de instituições públicas. Calil, por sua vez, voltou a chamar
as leis de incentivo de “abano com chapéu alheio”.

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